Os castelos de areia

Quando eu era pequeno eu gostava de ir a praia, ainda gosto. Os motivos são diferentes, antes era para brincar, correr, tentar nadar, eu dizia que sabia nadar. Até entender que o que eu fazia não era exatamente o significado de nadar, já tinha bebido muita água e engolido areia. Mas não desistia.

Sentar na areia, ver pequenos animais e peixes mortos, tudo me fascinava. Eu adorava aquilo. Adorava o mar, adorava a praia. Brinquei muito. Construí castelos na areia, estradas, cidades, construí um mundo particular.

Meus castelos eram reais. Toscos. Mas eram castelos. Eu não poderia leva-los para casa. Já sabia disso. Ainda assim eu os construia, sem uma planta a me guiar, uma ordem interna me conduzia. Era eu e o caos. Meu castelo de areia. Meu mundo particular.

Hoje sou adulto, perdi muito do meu lado de menino, impuseram-me isso. Quando você vai crescer? Eu ouvia. Todos nós ouvíamos. Teríamos que deixar de ser crianças para nos tornarmos adultos e rápido! Isso um dia realmente iria acontecer, sem dúvida. A pressa não era minha não é de nenhuma criança. A pressa era dos adultos que se esqueceram de ser crianças e nunca se tornaram adultos de verdade. Ainda temos medos, não mais do bicho papão ou monstros imaginários debaixo de nossas camas, nossos monstros são criados e alimentados em nossa fase adulta.

Nossos castelos de hoje desmoronam mais rapidamente que nossos castelos de areia. A diferença é que enquanto somos crianças contamos com a certeza que nossos castelos irão desaparecer pela próxima onda mais forte. Isso não assusta ou impõe temor a qualquer criança. Todas sabem disso. Quando muito, trazemos um baldinho com areia e algumas conchas catadas na praia.

Depois, adultos, perdemos o lúdico, o prazer e a alegria de viver o momento de felicidade, nos voltamos para o passado, não conseguimos nos desprender dos castelos criados e que também ruíram. Choramos. Agora é a melancolia e a tristeza que nos fazem companhia. Perdemos o olhar, o brilho, o riso. Nossos castelos se tornam lugares assombrados, fantasmas nos visitam. O medo nos acompanha. Nossos monstros agora não estão debaixo de nossas camas, agora estão dentro de nós. Hoje a água que bebemos também é salgada, são nossas lágrimas, a areia que engolíamos antes foi substituída pelo gosto amargo de nossos desgostos e angustias.

Quem sabe um dia possamos aprender a ser adultos, mas sem perder o lado criança.

Assim nossos castelos podem ser destruídos, mas nós não.

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